Considerado um sintoma “invisível” da Esclerose múltipla (EM), até 80% dos pacientes podem apresentar sensibilidade ao calor, também chamada de fenômeno de Uhthoff.1

E o que isso significa?

Trata-se de uma piora transitória dos sintomas neurológicos quando há um aumento de temperatura corporal, que pode ser provocado pelo calor, banho quente, sauna ou mesmo por exercícios físicos. Mesmo pequenas variações de temperatura de 0,2 a 0,5oC podem desencadear esse fenômeno, e a piora dos sintomas dura até que a temperatura do corpo retorne ao normal.2

Estão entre os sintomas comuns que pioram com o calor:

- Formigamento e dormência;

- Fadiga;

- Visão turva;

- Fraqueza;

- Desequilíbrio;

- Dificuldade cognitiva (esquecimentos, falta de concentração).

Mas por que isso acontece?

A EM é uma doença autoimune que resulta em placas desmielinizantes no cérebro, nos nervos ópticos e na medula espinhal. Vale ressaltar que a mielina é necessária para aumentar a velocidade de condução do impulso nervoso no sistema nervoso central (SNC). Consequentemente, a inflamação e o processo de desmielinização resultam em uma lentidão da transmissão do impulso nervoso no SNC, com falha nos canais de sódio e potássio. O calor pode piorar ainda mais esse funcionamento, lentificando ou mesmo bloqueando a passagem dos impulsos nos neurônios desmielinizados.2,3

Normalmente, o calor piora sintomas que a pessoa já teve em surtos de EM anteriores. Por exemplo: Se uma pessoa teve um surto com dormência que melhorou posteriormente, o calor pode fazer com que essa dormência retorne transitoriamente. 

Isso significa que estou tendo um novo surto?

É importante esclarecer que a sensibilidade ao calor não é um surto de EM novo. E o que diferencia é que, quando a temperatura do corpo volta ao normal, os sintomas desaparecem. Isso significa que nenhum dano novo ocorre nesses episódios (nem inflamação, nem desmielinização).2

Você sabia?

Você sabia que antes de haver ressonância magnética e serem definidos critérios mais específicos para EM, o “teste do banho quente” era utilizado para diagnosticar EM? A pessoa com suspeita diagnóstica era imersa em uma banheira com água quente a 41ºC por 10 a 15 minutos, e, em seguida, era examinada para verificar se havia surgido ou piorado os sintomas neurológicos.4

- Vista roupas frescas, soltas, com tecidos leves;

- Evite o uso de secador de cabelo;

- Evite a exposição direta ao sol, vá para a sombra e use chapéu;

- Refrigere o ambiente com ventilador e ar-condicionado;

- Hidrate-se! Água e isotônicos são necessários no calor!;

- Evite bebidas alcoólicas e cafeína;

- Tome bebidas geladas - picolés e frutas congeladas também podem ser uma boa opção!;

- Coma alimentos mais leves, como saladas e frutas;

- Borrife o rosto e o corpo com água fria;

- Evite lugares muito quentes e cheios;

- Evite banho quente ou sauna;

- Escolha os horários mais frios para fazer atividade física ao ar livre, preferencialmente, de manhã cedo ou à noite;

- Faça exercícios em ambiente fresco e faça pausas com frequência para ajudar a esfriar o seu corpo;

- Use produtos de resfriamento, como coletes e faixas para o pescoço durante exercícios. Compressas de gelo nos bolsos também podem ajudar a se refrescar ao sair de casa;

- Tome banho frio após atividade física ou exposição a ambiente quente.

Atenção: Nem tanto, nem tão pouco!

A principal fonte de produção de vitamina D se dá por meio da exposição solar. Vale lembrar que a vitamina D não é apenas um fator de risco modificável, mas também está associada à atividade da doença na EM. Pessoas com diagnóstico de EM e baixos níveis de vitamina D demonstraram ter maior atividade da doença.5 Logo, nem tanto, nem tão pouco! Se possível, exposição ao sol antes das 10h ou depois das 16h pode trazer um benefício adicional à sua saúde. 

Além disso, com exposições graduais e prolongadas, o corpo pode ser condicionado para funcionar no calor, por meio do que se chama de aclimatação. A longo prazo, esse processo reduz a sensibilidade à acetilcolina, que é o principal neurotransmissor que induz a transpiração em resposta aos estímulos nervosos. A redução do suor pelo processo de aclimatação preserva os fluidos corporais e resulta em uma perda de calor mais sustentável, com melhora da sensibilidade ao calor.6 

Equilíbrio é a chave de tudo! Ficar atento a essas dicas pode ajudar você a aproveitar o verão sem desconforto!

Dra. Lis Campos (CRM SE 4050)
Neuroimunologista; Preceptora da residência de neurologia do HU/UFS; Coordenadora do curso de medicina da UNIT/SE; Vice-coordenadora do REDONE.br (Registro Brasileiro de Doenças Neurológicas) da Academia Brasileira de Neurologia e membro do.

Referências Bibliográficas:

  1. Christogianni A, O'Garro J, Bibb R, Filtness A, Filingeri D. Heat and cold sensitivity in multiple sclerosis: A patient-centred perspective on triggers, symptoms, and thermal resilience practices. Mult Scler Relat Disord. 2022 Nov;67:104075. doi: 10.1016/j.msard.2022.104075. Epub 2022 Jul 25. PMID: 35963205.

  2. Christogianni A, Bibb R, Davis SL, Jay O, Barnett M, Evangelou N, Filingeri D. Temperature sensitivity in multiple sclerosis: An overview of its impact on sensory and cognitive symptoms. Temperature (Austin). 2018 Sep 5;5(3):208-223. doi: 10.1080/23328940.2018.1475831. PMID: 30377640; PMCID: PMC6205043.

  3. Davis SL, Wilson TE, White AT, Frohman EM. Thermoregulation in multiple sclerosis. J Appl Physiol (1985). 2010 Nov;109(5):1531-7. doi: 10.1152/japplphysiol.00460.2010. Epub 2010 Jul 29. PMID: 20671034; PMCID: PMC2980380.

  4. Malhotra AS, Goren H. The hot bath test in the diagnosis of multiple sclerosis. JAMA. 1981 Sep 4;246(10):1113-4. PMID: 7265400.

  5. Miclea A, Bagnoud M, Chan A, Hoepner R. A Brief Review of the Effects of Vitamin D on Multiple Sclerosis. Front Immunol. 2020 May 6;11:781. doi: 10.3389/fimmu.2020.00781. PMID: 32435244; PMCID: PMC7218089.

  6. Sun H. Temperature dependence of multiple sclerosis mortality rates in the United States. Mult Scler. 2017 Dec;23(14):1839-1846. doi: 10.1177/1352458516688954. Epub 2017 Jan 12. PMID: 28080218.